outubro 24, 2009

A ferida aberta do Vietnã

Milhares de crianças ainda sofrem as terríveis seqüelas do agente laranja empregado pelos EUA na guerra



Sequelas

Ao longo de dez anos, entre 1961 e 1971, o exército dos EUA despejou cerca de 80 milhões de litros de herbicidas sobre as selvas e plantações do Vietnã. Entre eles, o mais utilizado devido à sua terrível eficácia foi o conhecido como "agente laranja". Ao todo, 24 mil quilômetros quadrados foram borrifados com o veneno, o que deixou uma cicatriz que ainda pode ser vista nos corpos de muitos vietnamitas, três gerações depois. Milhares de crianças nasceram com problemas de pais que não foram expostos ao herbicida durante a guerra, mas que podem ter consumido alimentos contaminados. As vítimas costumam pertencer às famílias mais pobres.

Le Quang Chon é um homem destruído; destruído pela guerra do Vietnã, que para ele, assim como para muitos em seu país, nunca acabou. O agente laranja, um herbicida utilizado amplamente pelos EUA durante o conflito, com o duplo propósito de eliminar a vegetação para deixar o inimigo descoberto e destruir as colheitas, arruinou sua vida, as de seus filhos e a de sua neta.

As três gerações da família sofrem graves problemas de saúde por causa da dioxina contida no herbicida, segundo afirmam médicos vietnamitas. Essa substância química extremamente tóxica foi culpada pela alta incidência de doenças de pele, malformações genéticas, câncer, incapacidades mentais e outros problemas que afetam a população de algumas regiões do Vietnã e ex-militares dos EUA, Austrália, Nova Zelândia, Coréia do Sul e suas famílias.

Sentado num banco em sua modesta casa nas proximidades de Thanh Hoa - população de 200 mil pessoas, a 200 quilômetros ao sul de Hanói -, Le Quang, um ex-agricultor de 54 anos, olha para o passado com os olhos cheios de lágrimas, que às vezes não consegue conter, e narra sua história. Ao lado, sua neta agita-se nos braços de sua mulher, que tem o olhar perdido.

Junto à parede, um pequeno altar com uma foto preserva a memória do terceiro de seus três filhos, Chung, morto há dois meses aos 21 anos. "Depois do fim da guerra, em 1975, minha mulher teve nosso primeiro filho. Mas o que nasceu não era um ser humano. Em três ocasiões ela deu à luz seres que eram monstros e que morreram imediatamente. Pouco depois nasceu uma menina que parecia normal. Em 1982 tivemos um menino e em 1985, outro. Mas conforme cresciam começaram a sentir dores nos ossos. Os médicos diagnosticaram câncer na menina, e quando tinha 15 anos foi preciso amputar uma de suas pernas", ele conta.

O mesmo aconteceu com o menor, enquanto o segundo mal consegue andar e precisa usar muletas. "Depois minha filha se casou e teve uma menina", continua. "Mas, quando os médicos descobriram que ela tinha espinha bífida por causa do agente laranja, seu marido as abandonou."

A pequena Le Thi Lan Anh, de 6 anos, é uma das muitas crianças que, quatro décadas depois de o exército americano ter espalhado o desfolhante no Vietnã, continuam nascendo com danos no cérebro, bacia incompleta e outras deformidades físicas. Washington afirma, no entanto, que não há provas científicas suficientes que demonstrem que as dioxinas são a causa disso.

Segundo a Academia Nacional de Ciências dos EUA, até 4,8 milhões de pessoas podem ter sido expostas ao herbicida. "Médicos vietnamitas concluíram que a dioxina é a causa de diferentes doenças e produz mudanças genéticas nas pessoas expostas, seus filhos e seus netos. Calculamos que haja pelo menos um milhão de vítimas", afirma o doutor Le Ke Son, responsável do governo do Vietnã por temas ligados ao agente laranja.

Entre 1961 e 1971 as forças americanas despejaram cerca de 80 milhões de litros de herbicidas sobre as selvas e plantações, principalmente no Vietnã, mas também no Laos e no Camboja. Ao todo, 15 produtos químicos foram testados ou utilizados. Os principais foram os "herbicidas do arco-íris", assim chamados pela cor das marcas de identificação nos barris. Entre eles, o agente laranja foi o mais empregado devido a sua eficácia para transformar as florestas em mares de esqueletos de troncos e ramos. Era pulverizado de aviões, helicópteros, caminhões e lanchas, mas também à mão, nos arredores das próprias bases aéreas. Só no Vietnã foram desmatados 24 mil quilômetros quadrados com produtos químicos. Quando o líquido chovia do céu, os soldados e a população usavam panos impregnados com urina para proteger a boca e o nariz.

"Não sei de nenhuma guerra que tenha deixado uma cicatriz como a do Vietnã, uma cicatriz que pode ser vista no corpo de muita gente", afirma Nguyen Minh Y, da Associação de Vítimas do Agente Laranja do Vietnã.

Três áreas do país são consideradas altamente contaminadas ainda hoje: os arredores das antigas bases aéreas de Da Nang, Phu Cat e Bien Hoa, em cujas instalações eram armazenados os produtos. Os terrenos e águas próximos têm um alto conteúdo de dioxina. Um estudo realizado em Bien Hoa com a colaboração de cientistas canadenses detectou no solo níveis centenas de vezes superiores aos aceitáveis em outros países.

Milhares de crianças com problemas nasceram de pais que não foram expostos ao herbicida durante a guerra, mas que segundo especialistas podem ter consumido alimentos contaminados. As autoridades advertem os que vivem perto dessas áreas para que não bebam água, comam peixe ou cultivem frutas ou vegetais, mas algumas pessoas continuam alheias ao perigo.

As vítimas pertencem normalmente às famílias mais pobres. Incapazes de cuidar dessas crianças, muitas as abandonam, neste país em que os defeitos de nascimento são considerados um castigo por males cometidos por algum ancestral. Elas acabam nos chamados Povoados da Paz, que são financiados pelo governo e por países como a Alemanha. Existem 11 deles, que abrigam cerca de mil crianças, mas tratam muitas outras. Neles, recebem educação, cuidados médicos e reabilitação. Mas, segundo Nguyen Thi Thanh Phuong, diretora do centro em Hanói, criado em 1998 num antigo quartel de paredes descascadas, não têm verbas suficientes. O PIB per capita do Vietnã foi de US$ 610 em 2005, menos da metade do da China (US$ 1.416).

O Povoado da Paz vizinho ao hospital de obstetrícia Tu Du, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), é o principal. Abriga 60 jovens com graves malformações. Em um dos quartos cochila uma menina de 11 anos de cabeça muito maior que os ombros; outra, com o corpo coberto de escamas pretas, dá chutes no ar, amarrada a uma cama; mais além, uma criatura de quatro anos sem olhos agita as mãos diante da pele que cobre o lugar onde devia haver pálpebras.

"A maioria das crianças que estão aqui não tem família", explica Nguyen Thi Phuong Tan, a diretora. "Quando as mulheres vêm dar à luz, fazemos ultra-som, mas isso não é possível nas aldeias. E para as pessoas é impossível fazer um teste de DNA antes de ter um filho, pois custa US$ 2 mil."

Em outro quarto, Nguyen Viet, 25 anos, que não tem capacidade cognitiva, agita a cabeça sobre um travesseiro enquanto emite sons guturais, amarrado à cama pelo braço. Viet, cujo corpo é disforme, foi separado de seu irmão siamês Duc - que trabalha no centro, em informática - quando tinham 7 anos.

Cada um deles tem só uma perna e graves deformações ósseas. Outros internos - como um menino de 5 anos com olhos que parecem bolas de pingue-pongue, ou um rapaz sem pernas e dois dedos em forma de pinças no lugar de mãos - movem-se pelos corredores, riem ou saltam pelas camas como qualquer criança.

A guerra terminou em 30 de abril de 1975, quando os comunistas do norte tomaram Saigon e reunificaram o país. Hanói e Washington restabeleceram relações diplomáticas em 1995 e estão tentando cimentá-las graças à intensificação dos intercâmbios econômicos.
Os EUA descartaram indenizar as vítimas vietnamitas, apesar de se mostrarem dispostos a proporcionar assistência técnica e verbas para limpar as zonas contaminadas. A organização de veteranos de guerra americanos proporciona especialistas e a Fundação Ford financiou estudos ambientais e sanitários.

Para Le Ke Son não é suficiente. "Os EUA devem cooperar de forma mais intensa", afirma. Ele diz que o governo dá uma pensão média de US$ 18 ao mês para um total de 209 mil vítimas, o que representa mais de US$ 40 milhões por ano. Um número que médicos e vítimas consideram insuficiente.

Os afetados exigem que Washington reconheça sua responsabilidade e dê uma indenização clara. Em 1984 os veteranos americanos conseguiram US$ 180 milhões das companhias fabricantes do agente laranja, como Monsanto e Dow Chemical. Ex-soldados da Austrália, Canadá e Nova Zelândia chegaram a um acordo extrajudicial nesse mesmo ano. E em janeiro passado o tribunal de apelações da Coréia do Sul ordenou que a Monsanto e a Dow paguem US$ 62 milhões para 6.800 veteranos do país.

Em 2004 a associação de vítimas vietnamitas apresentou uma demanda contra os fabricantes em um tribunal de Nova York, mas foi rejeitada. O governo americano não está incluído na demanda, já que alega imunidade soberana. Em setembro de 2005 a associação apelou e a decisão judicial está pendente.

Fonte: El País, Via ICRVB

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